CAIS
Afogue-me numa maré de mim mesmo, e logo estenda-me a sua mão, firme, como quem entende das marés que me cobriam. Como cais, atraco meu peito em seu peito, meus dedos em seus cabelos. Tudo muda: o silêncio nas ruas, o sereno. É como pisar em terra firme após uma longa viagem num barco a remo: areia nos pés, sol e a sensação de estar finalmente em casa. A inegável sensação de que sinto por você não é apenas uma amizade comum, mas um vínculo que extrapola o imaginável. Mesmo com medo de ultrapassar o aceitável, eu aceitaria qualquer rótulo, desde que o vínculo fosse interminável. Nas dunas do meu próprio tempo, a areia da ampulheta se desfaz. E você é como um cais: você fica, não se vai. Você sorri e a tristeza se esvai. Você se aproxima e o coração atrai, quer mais — nem que seja mais do mesmo. O mesmo é rotina, e eu adoro ter rotina. Um brilho na retina. Meus apocalipses já silenciei, a mágoa estaciona, o presente vem à tona. Que bom que você veio, mesmo sabendo que fui eu quem voltei....