CAIS

Afogue-me numa maré de mim mesmo,
e logo estenda-me a sua mão,
firme, como quem entende das marés que me cobriam.

Como cais, atraco meu peito em seu peito,
meus dedos em seus cabelos.
Tudo muda: o silêncio nas ruas, o sereno.
É como pisar em terra firme após uma longa viagem num barco a remo:
areia nos pés, sol e a sensação de estar finalmente em casa.

A inegável sensação de que sinto por você
não é apenas uma amizade comum,
mas um vínculo que extrapola o imaginável.
Mesmo com medo de ultrapassar o aceitável,
eu aceitaria qualquer rótulo,
desde que o vínculo fosse interminável.

Nas dunas do meu próprio tempo,
a areia da ampulheta se desfaz.
E você é como um cais:
você fica, não se vai.
Você sorri e a tristeza se esvai.
Você se aproxima e o coração atrai,
quer mais — nem que seja mais do mesmo.

O mesmo é rotina,
e eu adoro ter rotina.
Um brilho na retina.

Meus apocalipses já silenciei,
a mágoa estaciona, o presente vem à tona.
Que bom que você veio,
mesmo sabendo que fui eu quem voltei.

É bom voltar e te encontrar aqui,
como um pôr do sol,
meu fôlego, meu cais.

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