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monções

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Monções Me sinto uma locomotiva que descarrilhou e deixou em pedaços as colunas que antes seguravam a minha presença nessas esquinas. E você insiste em não entender a pressão que exerce em mim. Pedaços. Sou apenas pedaços. Quem não me permitiu expor o que me sangra não tolerará minhas monções. Luto, surto, coitadismo ou compaixão. O que me resta é me rastejar entre o piso manchado, tentando ainda estar, tentando ainda permanecer, até que me escape do peito o último fôlego. Até que ponto você entende? Até que ponto está comigo? Até onde vai em nome do que diz que sente? Não é questão de dúvida. É que eu já fiquei sozinho por tempo demais. E estou dando o meu melhor para ainda estar aqui. Esclarecendo novamente: é necessário despir os pés dos calçados e caminhar na chuva, nesse desfiladeiro, onde estar de pé já parece um ato de resistência. É preciso estar. Mesmo quando tudo em mim pede para desaparecer. Estar na chuva. Estar no frio. Estar diante ...

vernissage

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Luz que rompe o breu dos meus olhos Remonta o silencioso voo A turbulência ameaçando a ruína do aeroplano Me sinto nas profundezas de um quadro em cores de Basquiat De Van Gogh a Van der Rohe Selvagem, dócil, meu ego pulsa em furor Meu corpo tingido em vermelho, como aquela de Bobardi As manchas pulsam e me recordam das vidas que já vivi Das pessoas que tive, de onde estive E de quando não mais te vi Uma história triste e bela como as obras de Debussy A sonata do caos perfazendo uma tragédia programada Do sul ao leste da megalópole A esperança de voltar que trouxe na mala As visões e perspectivas de um dia ensolarado As ligações que não fiz estão chamando até agora Senhora dos meus dias, engoli a seco Imaculada marginalidade Cigarro entre os dedos Eis a minha vernissage Desconstruí da mente a distopia de uma triste realidade Talvez fosse o medo de correr os riscos E engolir uma intragável verdade Shakespeare nunca fez tanto sentido

carta aberta a todas as pessoas que machuquei

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Carta aberta a todas as pessoas que machuquei Essa antiga mágoa me invade às vezes. Embaça o vidro barato que cobre os meus olhos. Coleciono cicatrizes quase nunca vistas por muitas pessoas. Já perambulei por vários lugares, implorando afeto. E, ainda quando eu encontrava, das mais simplórias e modestas maneiras, tudo ruía como um castelo de areia numa tempestade. Eu já fui muito menos sensato do que sou, e nem me considero assim, um poço de clareza. Ainda lembro de me deparar com os calçados molhados ao entrar pela kitnet alugada no centro. Ele estava no chão do banheiro, em completo desespero. Seu corpo trêmulo impedia a água do chuveiro de escorrer para o ralo. Era o emocional transpassando os limites do seu próprio corpo e afetando tudo ao redor. E, mesmo também com um emocional em frangalhos, o recolhi, te dei um banho de verdade. E, pouco após isso, reparei as caixas de pizza destruídas, como se tivessem sido atacadas por um animal faminto. Esse animal também era emocion...

isqueiro e gasolina

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Num instante, meu medo de perder o que tanto penei pra conquistar. Um amor que acalenta a alma, que faz dançar, fazer coisas bobas, cantar desafinado. Sua atenção é tudo o que desejo. É só em você que penso quando o peito dói. Meu olho chove, a boca amarga e os passos vacilam. Também é só em você que eu penso quando o dia amanhece bonito. Todo tempo lembro que você é meu. Meu motivo pra voltar pra casa. E sou seu fã número um, seu amor, seu tema de divã, seu amante, seu hoje, seu amanhã. Teu cheiro guia minhas ações. Teu toque me mostra o caminho. Seu olhar me pedindo tudo o que posso entregar. A motivação pela qual os pelos arrepiam, o suor escorre da testa e meu olhar cruza e permanece profundamente conectado ao seu. Somos isqueiro e gasolina. O terror da vizinhança. Parceria de toda a vida. Capotei meu coração nas suas curvas. Mergulho todas as noites no seu peito. Você é, definitivamente, sem sombra de dúvidas, o grande amor de todas as vidas que tive. E assim, sobrevive...

mais de você em mim

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mais de você em mim Mãe, me perdoe por sair de casa cedo. Eu queria saber o que esse mundo tinha pra mim. E, por vezes, perdi meu mundo, fiquei sem chão. O céu chorou sob nossas cabeças. Me desculpe por não estar ao seu lado quando precisou. Eu precisei passar pela passagem estreita pra estreitar nossa relação e entender, te entender, me entender. É difícil voltar pra casa, nunca me senti em casa. E não tem a ver com você, tem a ver com o fracasso emocional, como um vira-lata que corre atrás do próprio rabo. Acordei hoje pensando em olhar no espelho e encontrar mais de você em mim. Suas feições, seu olhar castanho, é o mesmo que o meu. Meus cabelos escuros são os mesmos que os seus. Meu amor pela vida, minha dedicação, minha gana, meus pés no chão são os mesmos que os seus. Faz tanto tempo que não me vejo como aquele garoto que brincava de sonhar. Hoje, mesmo tropeçando nas palavras, quebro todas as correntes que me prendem e sei que isso também vem de você. Qu...

carta aos meus demônios

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Na penumbra da passagem entre o ego e a insegurança, estive a mercê de deslizar e fazer escorrer entre meus dedos grandes momentos que vivi. O futuro, por um segundo, me pareceu um sonho em preto e branco, inalcançável, irreal, pois dei ouvidos a infelizes angústias que permeiam os tristes dias dos meus anos anteriores, dos quais estive, por inúmeros momentos, tentando não ser eu e tentando silenciar uma dor. E até hoje, ela não silencia. No oposto, ela silencia, mas, após, torna a gritar nos meus ouvidos os erros do passado, os tropeços que cometi, me dizendo que não sou digno de ver seu sorriso mais uma vez, tocar em suas mãos e andar à frente no caminho dos meus dias. Flagelo-me, mas me desmancho toda vez que lembro que as minhas feridas não foram causadas apenas por mim. Minha falta de cautela colocou em meu trajeto alguns que, travestidos de cuidado, tornaram a desmembrar minha autoestima. Já escrevi tantas cartas aos meus demônios E, ainda que, nessa maré, minha ...

por que escrevo

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Por que escrevo? Escrevo porque tenho um ego grande Escrevo porque já errei muito Com várias pessoas Escrevo porque já fui um garoto Que não sabia falar bem em público Então eu escrevo Escrevo pra falar de amor As palavras que meus lábios têm vergonha de dizer Escrevo pra lembrar do rosto dela Escrevo porque sinto E sinto muito Escrevo porque sou carente Preciso falar com alguém Escrevo porque é terapia Escrevo porque cura, mas antes machuca Ainda me pergunto Se tem que doer pra curar Escrevo pra falar de você E de como me faz bem Escrevo porque preciso de um tempo Escrevo pra lembrar de um tempo que passou E nem sei quanto tempo faz Que não escrevo sobre dor Têm acontecido tantas coisas boas Que até esqueço que um dia doeu Mas é importante falar de dor Escrevo pra me reconectar Escrevo porque escrever já salvou minha vida E me salva um pouco mais Sempre que escrevo Escrevo pra dizer o que sinto Escrevo porque às vezes me faltam as palavras certas Escre...