monções
Monções
Me sinto uma locomotiva que descarrilhou
e deixou em pedaços
as colunas que antes seguravam
a minha presença nessas esquinas.
E você insiste
em não entender a pressão que exerce em mim.
Pedaços.
Sou apenas pedaços.
Quem não me permitiu expor
o que me sangra
não tolerará minhas monções.
Luto, surto, coitadismo
ou compaixão.
O que me resta
é me rastejar entre o piso manchado,
tentando ainda estar,
tentando ainda permanecer,
até que me escape do peito
o último fôlego.
Até que ponto você entende?
Até que ponto está comigo?
Até onde vai
em nome do que diz que sente?
Não é questão de dúvida.
É que eu já fiquei sozinho
por tempo demais.
E estou dando o meu melhor
para ainda estar aqui.
Esclarecendo novamente:
é necessário despir os pés dos calçados
e caminhar na chuva,
nesse desfiladeiro,
onde estar de pé
já parece um ato de resistência.
É preciso estar.
Mesmo quando tudo em mim
pede para desaparecer.
Estar na chuva.
Estar no frio.
Estar diante do que sangra.
Estar, mesmo sem saber
se alguém estará comigo.
Admito:
eu só quero chorar
por oito horas sem parar,
como uma região desertificada
esperando pela chuva,
deixando a água lavar
e levar para longe
o cascalho das ladeiras,
da viela onde se esconde.
Quero estar ali
quando a água vier.
Quero deixar que ela passe por mim,
que leve o que puder levar,
que me devolva alguma coisa
que eu ainda possa chamar de presença.
Como um barco
engolido pelas ondas do mar,
ainda tentando estar
onde o mar já não permite.
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