carta aberta a todas as pessoas que machuquei
Carta aberta a todas as pessoas que machuquei
Essa antiga mágoa me invade às vezes.
Embaça o vidro barato que cobre os meus olhos.
Coleciono cicatrizes quase nunca vistas por muitas pessoas.
Já perambulei por vários lugares, implorando afeto. E, ainda quando eu encontrava, das mais simplórias e modestas maneiras, tudo ruía como um castelo de areia numa tempestade.
Eu já fui muito menos sensato do que sou, e nem me considero assim, um poço de clareza.
Ainda lembro de me deparar com os calçados molhados ao entrar pela kitnet alugada no centro.
Ele estava no chão do banheiro, em completo desespero. Seu corpo trêmulo impedia a água do chuveiro de escorrer para o ralo. Era o emocional transpassando os limites do seu próprio corpo e afetando tudo ao redor.
E, mesmo também com um emocional em frangalhos, o recolhi, te dei um banho de verdade. E, pouco após isso, reparei as caixas de pizza destruídas, como se tivessem sido atacadas por um animal faminto.
Esse animal também era emocional.
Me calei. Afinal, eu ainda tinha que secar o chão.
A água ultrapassou a porta daquele cubículo alugado. Agora chegava às escadas de acesso.
Todos temos nossas tempestades.
Enfim.
O fato é que o acúmulo desse entulho emocional, não transformado em conversas maduras (pois toda tentativa de conversa se transformava em mais tempestade), foi também me quebrando cada vez mais.
Mas agora, em pequenos caquinhos, impossíveis de montar, porque viraram poeira.
Me senti por anos assim, empoeirado. Como um casaco velho que "herdei" da minha avó.
E, após pôr uma pá de terra nessa bagunça, eu tentei, tentei de novo e mais uma vez.
As tentativas foram acumulando conversas engraçadas e absurdas, mas também histórias para contar na terapia, que talvez, só um pouquinho, ilustrem a forma como eu lido com toda a minha bagunça hoje em dia.
O fato é que eu baguncei a vida de muita gente também.
Mas não fiz isso sozinho.
Era como uma guerra de travesseiros.
Na verdade, eu nunca expulsei ninguém de casa.
Mas já fui muito irresponsável afetivamente.
E, mais do que tudo na vida, eu já fiz de tudo para agradar um monte de gente.
E os castelinhos de areia continuavam a desmoronar.
Guerras de travesseiro sempre acabam com alguém se machucando.
E nunca é tão emocionante quanto nos filmes.
E essa metáfora sem graça é apenas um exemplo para dizer que eu deveria ter tido mais amor por mim mesmo.
Essa sempre foi a minha maior fraqueza.
E ele sabia disso.
Por isso, sempre jogava álcool nas minhas feridas.
Em sentido figurado, é claro.
Perdi as contas de quantas vezes fui chamado de egoísta.
Eu tenho certeza de que perdi uns 7 aninhos da minha vida tentando fazer esses quase dois anos os mais suportáveis possíveis.
"As pessoas nunca negam sua natureza."
Nunca vou parar de repetir essa frase.
Ela sempre fez muito sentido para mim.
E, questionando sobre a minha natureza, eu acho que sou dramático por natureza. Isso é muito incômodo para muita gente.
Sou emocional demais.
Sou afetuoso demais.
Sinto a necessidade de, volta e meia, me declarar.
Isso também é muito incômodo para muita gente.
Eu sou muito medroso.
E meu medo de machucar as pessoas que amo acaba machucando as pessoas que eu amo.
Eu tenho esse medo infantil e essa insegurança de sempre querer falar a coisa certa e corresponder às expectativas.
Porque, no fundo, eu sei o quanto dói ser deixado de lado.
E já me senti muito sozinho na vida.
E, em contrapartida, eu tento ser o mais leve possível.
Apesar das olheiras bem marcadas, das noites em que dormi pouco.
Uma hora a conta vai chegar e vou ter que hibernar por alguns anos (Deus queira kk).
Em resumo, eu lamento por ser uma pessoa difícil de lidar.
E por não ter correspondido às expectativas.
Lamento ter sido tão infantil. Eu era realmente muito novo.
Lamento ter tido tanto medo.
Lamento não ter sido fiel quando precisei ser.
Me questionei muito sobre isso.
Constatei que eu não sou um monstro.
Eu só não sabia o que estava fazendo.
Em segredo, eu estava constantemente planejando a minha morte.
E eu me punia, e isso, por consequência, também te machucava.
Isso tudo é sobre mim.
Sempre foi sobre mim.
No fim, sou eu tentando não morrer.
E tentando me convencer de que sou merecedor de alguma coisa boa.
Espero que essa pressão toda um dia acabe.
Não quero mais machucar ninguém.
Não quero aumentar a coleção de fracassos.
Eu estou cansado.
E cansado de ficar cansado.
Mas sigo vivo e vivendo.
Tentando fazê-lo feliz.
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