carta aos meus demônios

Na penumbra da passagem entre o ego e a insegurança,
estive a mercê de deslizar
e fazer escorrer entre meus dedos
grandes momentos que vivi.

O futuro, por um segundo, me pareceu um sonho em preto e branco,
inalcançável, irreal,
pois dei ouvidos a infelizes angústias que permeiam os tristes dias dos meus anos anteriores,
dos quais estive, por inúmeros momentos,
tentando não ser eu e tentando silenciar uma dor.

E até hoje, ela não silencia.
No oposto, ela silencia, mas, após, torna a gritar nos meus ouvidos
os erros do passado,
os tropeços que cometi,
me dizendo que não sou digno de ver seu sorriso mais uma vez,
tocar em suas mãos
e andar à frente no caminho dos meus dias.

Flagelo-me, mas me desmancho toda vez que lembro
que as minhas feridas não foram causadas apenas por mim.
Minha falta de cautela colocou em meu trajeto
alguns que, travestidos de cuidado, tornaram a desmembrar minha autoestima.

Já escrevi tantas cartas aos meus demônios

E, ainda que, nessa maré,
minha gana por sobreviver tenha se mostrado maior,
ainda arde o peito, ainda mantém o desespero.
Mas torno a pensar em você.
É inevitavel não sentir medo de machucá-lo,
e já notei que o medo também machuca.

O medo causa uma bagunça estranha,
faz a gente se sentir acoado.
Ainda sinto que há tanta coisa pra consertar.
Sou uma casa em obras que nunca terminam,
que já viu dias felizes,
mas foi abalada por um furacão.

Sua presença faz voltar a vida.
De novo, pássaros se pendurando no portão, as flores cobrindo o gramado.
O sol invadindo a sala num domingo,
e, mesmo sabendo que há tanto a ser feito,
digo que quero construir algo em mim,
me perdoar
e admitir que mereço ser feliz.
Mereço ser amado
e que vale a pena estar vivo.


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