Meninos doces
Meninos Doces
Filho de José com dona Sil
Menino gay, vindo de um dos estados mais conservadores do Brasil.
Cresceu ouvindo falar do filho da vizinha
Expulso de casa por pintar o cabelo
E ir pra festa vestido de sainha.
Era doce, gentil, afetuoso
Mas, era bicha, gordo, nerd, medroso, esquisito
Se afundava em livros pra tentar silenciar sua mente em conflito
O melhor da classe, aluno favorito
Atento, breve, entregue
Motivação pra docência, Inspiração pra greve
Não era o bastante, pouca idade
Prostituição, abuso de drogas, promiscuidade na sequência?
Mal falado na cidade?
As capelas e cultos foram o Gênesis
As árvores de seus pensamentos cheias de corvos
Palavras de familiares foram némesis
Cumprindo expectativas pra não ser 1 entre esses corpos
Coração medroso, das igrejas foi oficina
Um belo atrativo pra imundas línguas
Ela sussurrou:
“As capelas estão cheias de demônios, garoto
Bocas porcas em seus altares, discurso torto
Nos becos prontos pra fazer sua mãe chorar
Eles não te querem bem.”
Igrejas querem obediência, senhores te querem submisso
Patrões querem padrões, exigência de excelência no serviço
Sem cores para os meninos doces
Só preto lhes bem cabe
Descrição não é opção
Preocupados com quem mais sabe
Ele olhou o céu como Cartola
Já foi embora
Se sentiu sozinho
Precisou se encontrar
Seu mundo já foi moinho
Amou a melodia como Luiz
Fumou um cigarro como A Mais Bonita
Já fez de tudo como Leandro
Como pérola, por dentro a vida já foi teu pranto
O maior medo do seu pai era ver seu menino chorar
Ele sempre soube que tinha questões a tratar
Antes que soubesse que tinha questões a tratar
O homem da casa desmontou o armário
Sua irmã escutou Elis, “Há perigo na esquina”
E entendeu que um beijo em público pode ser como um isqueiro em gasolina
O que resta pros meninos que têm fome?
De suas famílias foram vítimas
Domingos sem ceia
Camuflados na noite pelos seus codinomes
Perigosos, capitães de areia
Vivendo à margem da margem
Abusados, esquecidos
Números na estatística
Vestindo sua linguagem
Pele escura é desvantagem
Onde está sua mãe? Cadê seu pai?
Onde fica seu lar? Onde está seu cais?
O que é seu? Me diz!
Seu porto, sua fé, seu chão
Seu pouso, seus pés, pra onde vão?
Pro lar, pro mar, pra outra cidade
Pra um bar, pra qualquer lugar!
Sua mãe ainda pensa, ainda lembra
De sua doçura, seu tato, seu carinho
Mesmo longe, ela reza pelo seu menino
Seu pai afogou-se no orgulho
Numa maré de si mesmo, só
Sozinho ele chora, pelo filho
Pela filha, a vergonha da família
Onde estão os meninos doces?
Não cabem no mundo
Despidos, amargos, ácidos
Azedos… Amados
Em luto constante, por si
Pelo que perderam, por quem se foi
Por sua mãe e pai
Quem chora pelos meninos doces?
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