Sente só
Ele é o resultado de uma enorme frustração,
fruto de uma mudança de estado de uma família que, por hoje, já não se fala mais.
Nas veias corre o mais puro rancor que um homem do interior pode sentir,
tendo seus sonhos esmagados pelo irmão de seu pai.
Poeira, chão de terra, chuva quente, desespero,
paredes de madeirite, espinhos, vestes puídas.
Nem o dia mais feliz de sua vida fez regenerar sua ferida.
Não que não houvesse satisfação, mas havia uma parte que não estava lá — e nunca estará.
A parte que lhe foi roubada virou o sustento através do trabalho análogo à escravidão.
Seu pai morreu de desgosto; não sustentou as chagas que, anos antes, havia adquirido.
E, volta e meia, ainda assombra os sonhos dos que ficaram,
com símbolos ininteligíveis, sons inaudíveis.
Já não assusta mais — é apenas um retrato animado de uma história que deveria ter ficado no passado.
Causa depressão, causa a sensação de que tudo o que foi construído após o trauma não foi real, não tem valor.
Fantasmas também têm medo do escuro.
Procurar, incessantemente buscar, uma razão pra viver.
Ele já não deitou mais no peito de sua amada.
Já não esteve em pé, pontualmente.
Viu a manhã, a tarde e a lua subir ao céu, estando de sua cama.
Seus motivos pra sonhar se esvaindo entre os dedos,
manchando o tecido de sua alma.
Mas a vida tem que seguir. A vida sempre vence.
Ouvindo Tim, ele ergueu a cabeça, descruzou as pernas,
apoiou seu pesado corpo em suas mãos
e, em passos de formiga, tentou mais uma vez.
Tirou a poeira da estante, abriu aquele livro velho que foi lido até a metade.
Caminhou pelo bairro, viu o sol nascer, viu o sol se pôr — em pé.
Vivo. Incansavelmente vivo.
Volta e meia encontra retratos antigos ou se lembra do passado.
O sentimento diminuiu, mas nunca passou. Ele sente.
Quantas vidas um homem pode viver?
Quantas vezes alguém pode morrer, ainda estando em vida?
Já morreu de amor, já morreu de saudade.
Já morreu de rir, já viveu à míngua.
Já viveu às traças, já comeu fracasso.
Almoçou lágrimas, jantou amargor.
Bebericou com as aranhas dos cantos dos cômodos.
Já falou sozinho, já esteve só.
E, todos os dias, ele ainda se sente assim.
Mas, além disso, se sente vivo.
E isso é bom.
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