Meu Amigo Tempo

Vi a alma de Cronos habitar Kairós
E tudo fez sentido, mais uma vez.
A sua presença no mesmo espaço,
O tempo que já passamos juntos,
Sua fé racional, sua maneira,
Seu apreço por uma roupa confortável e uma noite em casa,
Sua estabilidade, sua verdade,
Seus pés firmes no chão.

Você é como o tempo, pra mim,
Pois parece saber de mais coisas que eu.
Passou mais tempo por aqui,
Já viu seus cabelos crescerem mais vezes,
Conheceu a TV do fim dos anos 90,
Já leu mais livros,
Já olhou mais vezes pro céu, pras estrelas.

Você se arrepende de algo?
Acha que perdeu tempo com algo?
Algo já te fez sentir calafrios?
(...)

Eu talvez seja como o espaço,
Pois já andei por tantos espaços,
Estudo os espaços e sei onde piso.
E, por vezes, preciso muito de espaço.

Com o urbanismo, aprendi que “espaço” é uma área qualquer, onde as pessoas só passam.
Já onde as pessoas criam vínculos, vivem histórias, chamamos de lugar.

Quantas vezes eu já não quis ser um lugar e deixar de ver tantas pessoas partirem?
Eu sou um lugar pra você?

Confesso que segurei lágrimas quando você me disse estar com saudades.
Não costumo ouvir isso de muitas pessoas.
Pois, talvez, no oposto,
Eu seja menos estável, seja mais efêmero,
Bipolar, cansado, fujão.

Mas tem algo em você — e em algumas outras pessoas —
Que me dá vontade de ficar, não voltar.
Recobrar a consciência e voltar a remendar a colcha de retalhos,
Os espaços da minha alma.

E acredito que o tempo é uma máquina de costurar.
Será que esse é o meu lar?
Não me sinto aqui, ainda não.
E juro que tô tentando.

Minha alma parece pertencer a outro espaço,
E isso me assombra há muito tempo.
Dias e noites pensando no que fiz.

O tempo nos faz ter cabelos brancos,
Acender velas de pedidos,
Ficar com sono,
Mas, principalmente, ficar mais calmos.
Estacionar um pouco.

Meu amigo tempo,
Um dia precisamos ter aquela conversa,
Que ficou pendente de dias e dias,
Que começou em um espaço e continuou no outro,
Mas não termina.

Eu sou um lugar pra você?
Minha presença é um espaço confortável,
A ponto de você querer perder tempo?

Se eu ainda não for,
Me avisa,
Que eu perco um tempo,
Arrumo o lugar,
Limpo os espaços empoeirados
E te recebo.

E não falo da minha casa.
Falo sobre o tempo que se perde tentando,
Tentando ser outra coisa
E pular de espaço em espaço.

Me conta, por onde você anda?
O que faz nas terças-feiras às 8 horas?
Que música tem ouvido?
Quero saber tudo, tudo.
Prometo que respondo em tempo.

E, por último, mas não menos importante,
Agradeço a paciência,
A presença, os abraços,
Os sorrisos.

Senhor Tempo, meu amigo Tempo,
Sabichão, ranzinza, gentil,
O tempo pode passar —
Dias, meses, anos, décadas —
Mas, se quiser, se ainda quiser,
Você tem um amigo em mim.


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