sal marinho

Sal marinho

As lágrimas secas abaixo dos olhos.
O vento intenso me corta o rosto.
Os lábios secos — esse seu breu é oposto.
Em uma das minhas tentativas de escapar
dos meus próprios demônios,
vi minha irmã chorar ao saber da minha terceira tentativa de suicídio.

Eu simplesmente não me sentia presente.
Não via um encaixe nem um sentido nesse longo vídeo.
Todo limítrofe momento sempre precede
a uma epifania emocional:
despertar, acolher, respeitar e corresponder.

Quantas vezes você já foi a um funeral?
Quanta gente tem medo de ser si?
A raiva não cabe no meu coração,
e a saudade faz valer e despedaça
meu peito como num furacão.

Não sou reflexo do ódio.
Estou vivo graças ao amor da minha família.
Desde então, não choro mais.
Me prendo ao chão, já não vivo em vão.
Mas meu olho ainda chove e inunda algum pedaço do meu peito —
e mesmo sendo ilógico,
é quando lembro de você.

Quase aos 15, eu caminhando aos 30.
Já fazem quase 15.
Parece morte, mas é só a vida.

Cabelos ruivos, cantante,
me faz sentir vivo, de algum modo.
Uma viagem alucinante,
o fundo do poço,
idas e vindas.
A vida tem esse retrogosto
de sal marinho e a neblina da serra.

Já não me amarro nem agarro-me.
Sou fruto da terra,
sou sal e vinagre.
Vivi em tragédias,
escapei por milagres.
Já rezei vários dias,
já plantei várias árvores.

Você parou no tempo e me observa de longe.
Lá fora, eu escuto tudo —
os pássaros, os postes, onde esse breu se esconde.
Sua passagem latente,
meu presente cortante,
me faz quebrar os batentes.

Ainda te enxergo nas rodovias,
te vejo entre a fina cerração,
e fico bem, pois você parece bem.
E, apesar de nem sempre estar bem,
tem tanta gente por aqui que quer o meu bem,
que o passado fica mais suave,
como terra molhada da chuva
embaixo dos meus pés.


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